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Passeio de Escuna

O Tempo Dos Velhos Lotações

16 NOV 2014
16 de Novembro de 2014

Conhecidos como ‘Amarelinhos’, as velhas charangas Mercedes Benz marcaram uma época romântica do sistema de transportes da comunidade

Quem usa o transporte público oficial e alternativo na comunidade da Rocinha nos dias atuais talvez nem tenha parado para pensar o quanto isso mudou ao longo dos anos. Andar de micro ônibus novinho com ar condicionado, catraca eletrônica; motorista/cobrador, utilizar passe livre, Rio Card, Vale Transporte, etc, como acontece na linha 537 (Rocinha-Leblon), antiga 546, seria algo impensado nos idos de 1965 quando começou a circular na parte de cima da Estrada da Gávea, precisamente próximo a Curva da Rua Dois, os famosos lotações Amarelinhos. Eram verdadeiras charangas que faziam Ponto Final próximo ao Bar do Seu Luiz, onde hoje é a oficina do Gaguinho e transportavam os moradores até a Gávea, na Praça Santos Dumont. No ônibus cabiam 30 passageiros sentados, e o restante num salve-se como puder. Era comum as pessoas, sobretudo jovens, viajarem penduradas na porta (e até janelas) do coletivo, que sacolejava barulhento no trajeto de 5 quilômetros de ladeiras e 17 curvas fechadas. 51, 55, 60, 62, 66, 70 e 75, eram os números finais dos Amarelinhos muitas vezes dirigidos pelos próprios donos, conhecidos como: Daniel, José, Fernando, Mineiro, Machado, Brau e Zezinho.

Motoristas como: Waltinho, Seu Gutarro, Sérgio TiMikita, Teí, Macarrão, entre outros, marcaram época. A exemplo de como acontece hoje nas vans, os cobradores sacudiam moedas e andavam pelo veículo cobrando os passageiros, sendo comum, brigas e discussões dentro do coletivo. O saudoso Amarelinho também entrou para os anais do cinema brasileiro, pois pouco antes de ser desativado, serviu de cenário para as filmagens de ‘A Dama do Lotação’, um filme do dramaturgo Nelson Rodrigues, do ano de 1978. A estrela Sônia Braga gravou cenas sensuais no interior de uma das charangas provocando suspiros no público que acompanhava as filmagens de longe.

Chamados de “Cata Corno”, “Cata Mendigos” entre outros apelidos pejorativos, os lotações de cor amarela tiveram grande parcela de importância num tempo em que a favela da Rocinha era bastante desassistida no sistema de transportes. Não existiam vans nem moto taxistas, e além do velho ônibus que atendia a demanda da parte alta da Rocinha, só se podia contar com o antigo 545 (Rocinha-Gávea), geralmente dirigido por Seu Geraldo e o popular Ventania. Esse ônibus já era pertencente a Empresa TAU (Transportes Amigos Unidos), e fazia ponto final na Fundação. Na virada dos anos 70/80 foram extintos os Amarelinhos e a TAU assumiu definitivamente a linha 546.

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